Infra-estrutura, crescimento econômico e desenvolvimento
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), criada em 1942, entidade máxima de representação da indústria paulista, é considerada a maior entidade empresarial do país. Saturnino Sérgio da Silva, que concedeu a entrevista, é vice-presidente do Departamento de Infra-Estrutura (Deinfra) da federação.
Como a Fiesp analisa a questão dos investimentos em infra-estrutura urbana?
Saturnino Silva – O binômio infra-estrutura e educação representa o que o Brasil necessita para alcançar o desenvolvimento sustentável, há pelo menos duas décadas. Investimentos regulares e adequados em infra-estrutura propiciam crescimento econômico e os direcionados à educação aumentam a base cultural e ampliam as possibilidades do cidadão, que acabam por induzir o desenvolvimento do país. Na década de 1970, os investimentos de 23,5% ao ano, em média, sobre o produto interno bruto (PIB) certamente ajudaram o Brasil a crescer à taxa de 8% ao ano, naquele período. A dificuldade que enfrentamos nos últimos anos para atingir pífios 2,3% de crescimento, registrados em 2005, reflete anos seguidos do descaso público na manutenção dos investimentos em infra-estrutura, que baixaram a insuficientes 15% do PIB na década.
Qual é o reflexo dessa situação no setor de transportes?
Saturnino Silva – O reflexo disso é visível nas más condições das estradas, por onde passa a produção nacional destinada ao mercado interno e externo, nos gargalos do sistema portuário e na subutilização do transporte ferroviário e hidroviário. Essa matriz de transportes distorcida leva a um inchaço do custo Brasil, que prejudica a competitividade de nossos produtos, causando o desestímulo no setor produtivo e a retração de investimentos. Pesquisa da FGV, de abril, que mede o “ímpeto investidor” da indústria brasileira, aponta uma redução na participação das empresas que tencionavam investir mais este ano – uma queda de 65% em 2005 para 55% em 2006. Esse bloqueio à visão de longo prazo dificulta a busca das soluções estruturadas, planejadas e consistentes que permitiriam ao País retomar a rota do crescimento.
Há alguma perspectiva de mudança nesse cenário?
Saturnino Silva – Felizmente alguns sinais estão sendo anunciados na área de planejamento. O Ministério de Minas e Energia lançou o Plano Decenal de Energia Elétrica, que permite uma visão setorial até 2016, e anunciou a elaboração do Plano Nacional de Energia, que avaliará as perspectivas energéticas para o horizonte de 2030. Outra iniciativa importante e pioneira foi a publicação do estudo sobre a matriz energética do Estado de São Paulo, pela Secretaria de Estado de Energia, Recursos Hídricos e Saneamento. O documento ampliará o debate sobre o futuro energético paulista. Na área de transportes, o anúncio do Plano Nacional de Logística e Transportes, que será feito pelo Ministério dos Transportes neste mês, na Fiesp, também é uma notícia alvissareira.
Como a Fiesp analisa a participação dos agentes produtores no planejamento da infra-estrutura?
Saturnino Silva – Embora importantes, tais mobilizações por si só não se sustentam ou não produzem os resultados otimizados desejados. Há necessidade da participação da sociedade e dos diversos segmentos representados por entidades constituídas, como é o caso das indústrias reunidas na Fiesp. Dentro das duas prioridades máximas em infra-estrutura, que são energia e transportes, identificam-se ações de fundo que permitirão alcançar a visão de longo prazo, e também as que estimulam o desprendimento e a boa vontade entre os agentes envolvidos, para que se obtenham resultados de curto prazo. Neste sentido a Fiesp vem realizando reuniões com a Petrobras e representantes dos consumidores na busca da melhor alternativa para escapar das amarras bolivianas, envolvendo, inclusive, um plano ajustado de contingenciamento interno.
E com relação aos transportes?
Saturnino Silva – Na área de transportes, a política para a reformulação, valorização e o planejamento orquestrado para a busca da intermodalidade será o ponto forte para a eliminação dos gargalos pontuais e crônicos do Porto de Santos. Esse é o caminho pelo qual optamos e imaginamos uma estratégia nacional que vise ao crescimento, ao desenvolvimento e, finalmente, à sua sustentabilidade.



